A conversa sobre resíduos vai para além do ambiente

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No Dia da Sustentabilidade, que esta sexta-feira juntou especialistas e representantes de várias áreas em Paço de Arcos, o painel dedicado aos resíduos contou com o apoio da Novo Verde e da ERP Portugal. Falou-se de geopolítica, resíduos, consumo e circularidade.

Por: Expresso

Falar do reaproveitamento de resíduos era, sobretudo, falar de ambiente. Hoje, a economia circular começa a ser encarada também como uma questão de eficiência, autonomia e segurança para as empresas, num contexto de guerras, instabilidade geopolítica e perturbações nas cadeias de abastecimento. “Quando falamos de dependências, por que não pôr a circularidade, a reincorporação dos materiais, também no topo da lista?”, questionou Joana Balsemão, Head of Sustainability do Kaizen Institute, na conferência do Dia da Sustentabilidade, um evento promovido pelo Expresso que teve lugar esta sexta-feira.

Um bom exemplo? Uma empresa de pasta de papel que conseguiu reduzir custos ao reintroduzir a pasta na cadeia de valor. “Há ganhos para o planeta, mas também financeiros”, sublinha a responsável.

Participaram ainda no painel Raquel Barroso, associada sénior da Abreu Advogados; Ricardo Neto, presidente do Conselho de Administração da Novo Verde e da ERP Portugal; e Victor Marinheiro, da Associação das Indústrias de Madeira e Mobiliário de Portugal (AIMMP).

Conheça as principais conclusões:

  • A sustentabilidade já não é um conceito separado da estratégia empresarial e tem de estar ligada também aos riscos geopolíticos e climáticos. “A imprevisibilidade é enorme. Há 65 conflitos activos”, que impactam as cadeias de abastecimento, diz Joana Balsemão. Antes, as empresas tinham tendência para um produtor, por exemplo, agora já alargam a carteira para diferentes geografias. “Apostavam no just-in-time e agora apostam no just-in-case”, explica.
  • “Estamos a recolher pouco”, afirmou Ricardo Neto, sublinhando que Portugal continua sem cumprir a meta de recolha de vidro. Como este material representa uma parte significativa do total das embalagens colocadas no mercado, o incumprimento desta meta tem impacto direto no resultado global.
  • Raquel Barroso criticou a multiplicação de portarias, planos, diretivas e regulamentos que, na sua perspetiva, não tem sido acompanhada pela execução necessária. “Não vale a pena estarmos sempre a falar de circularidade” sem falar do fim do estatuto de resíduo, afirmou, apontando ainda um “excesso burocrático” e “um medo enorme de decidir” por parte da administração pública.
O painel sobre os desafios das embalagens juntou Joana Balsemão; Raquel Barroso; Ricardo Neto e Victor Marinheiro
O painel sobre os desafios das embalagens juntou Joana Balsemão; Raquel Barroso; Ricardo Neto e Victor Marinheiro
NUNO BOTELHO
  • Para aumentar a incorporação de materiais reciclados na indústria, o desafio está em garantir todo o percurso, da recolha e separação à transformação dos resíduos em matérias-primas secundárias com qualidade, estabilidade e escala. Victor Marinheiro deu o exemplo do aço, das espumas e dos resíduos têxteis, que podem voltar a ser aproveitados pela indústria, embora alguns processos exijam tecnologia, investimento e maior escala.
  • Joana Balsemão defendeu que as questões relacionadas com os resíduos resultam de decisões humanas e que medidas como a taxação podem ajudar a orientar comportamentos: “É uma forma de nortear o comportamento”, afirmou, dando como exemplo a cobrança dos sacos de plástico. Sobre o Volta, Raquel Barroso reconheceu que o sistema tem problemas na fase de implementação, mas considerou que fazem parte do processo: “O Volta tem fortes dores de crescimento, mas são dores de crescimento.” E acrescentou: “Não podemos demonizar o Volta”.

 

 

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Nuno Botelho

Fotojornalista

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Teresa David

Jornalista